Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço.
Uma fita dando voltas. Enrosca-se, mas não embola.
Vira, revira, circula e pronto, está dado o laço.
É assim que é o abraço (…)
Ah, então é assim o amor, a amizade, tudo que é sentimento.
Como um pedaço de fita.
Enrosca, segura um pouquinho, mas não pode se desfazer a qualquer hora, deixando livre as duas bandas do laço.
Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.
E quando alguém briga então se diz: romperam-se os laços.
Então o amor, a amizade são isso.
Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço.
Inácio morreu. Pedro sumiu. Henrique nunca veio.
Inácio está morto. Eu o matei. Que agora toque a Marcha Fúnebre, que Chopin soe pelos meus ouvidos e pelos ouvidos de quem agora me ler. Inácio está morto, vou chorar… Mas por que hei de chorar se fui eu quem o matei? Oh! Se arrependimento levasse a morte… Estaria eu agora a valsear com meu querido Inácio. Nós dois, mortos e juntos, eternizados numa dança sem passos e compassos, contentes e sozinhos, mortos! Inácio morreu, e eu, sua assassina, ainda permaneço viva – o que me parece injusto. Vejo Inácio passar de lá para cá com seu chapéu-coco e um cigarro nos lábios, cantando blues e atraindo olhares femininos, mas não posso lhe dizer olá e depois um adeus, não posso mais me importar e o importunar. Inácio foi morto, eu o matei, ele agora pertence ao mundo e não mais a mim.
Oh! Pedro desapareceu. Já pensei em por anúncios por aí, citar em jornais, falar em rádios e na tevê, dizer a todos e ao mundo. Meu Pedro sumiu, não tenho mais nenhum. Com quem hei de gritar? Em quem hei de descontar toda minha raiva e frustações? Quem há de me mandar calar a boca e tentar fazê-lo com um beijo? Quem me bagunçará os cabelos quando eu acabar de fazê-los? Quem sujará todos os pratos só para ver-me lavar outra vez? Que tragam logo este ingrato de volta, que o devolvam logo para mim. Preciso gritar com alguém!
Canso-me numa espera gozada. Gargalha bem alto que é para todos ouvirem e juntos formarem uma canção de risos. É a presença que não chega, a ausência que judia. Onde está Henrique? Por que nunca veio? O que há com essa estrada que se estende e o atrasa? Quero meu Henrique aqui. Não sei como é tê-lo, por isso cansa-me ter que imaginar e já não sou tão criativa assim para trazê-lo aqui dessa maneira utópica. Quero Henrique de carne e osso, com erros e acertos, até com cheiros e odores. Simplesmente o quero. Sim, Senhor.
Então, de repente, Inácio ressuscita, Pedro reaparece, Henrique chega.
Os três homens embravecidos se reúnem em minha sala… Que é que eu vou fazer? (SmtR)


